reflexões


Fale conosco

A Cultura Americana

Nem Letrados Nem Engraçados

          A Última Chance na Terra


 

segue um dos primeiros textos que me fizeram pensar sobre a vida, sociedade, etc. em os idos de 96, por mãos de um amigo, Ricardo Ludiosa...


Eu sei, mas não deveria

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não deveria.

A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, por que não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não se abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

Agente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não da para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisa tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar dinheiro com que pagar. E a a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e a ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e chero de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. A contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, agente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim da semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica pensando satisfeito porque tem sono atrasado.

Agente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se da faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

Marina Colasanti nasceu em Asmara, Etiópia, morou 11 anos na Itália e desde então vive no Brasil. Publicou vários livros de contos, crônicas, poemas e histórias infantis. Recebeu o Prêmio Jabuti com Eu sei mas não devia e também por Rota de Colisão. Dentre outros escreveu E por falar em Amor; Contos de Amor Rasgados; Aqui entre nós, Intimidade Pública, Eu Sozinha, Zooilógico, A Morada do Ser, A nova Mulher, Mulher daqui pra Frente e O leopardo é um animal delicado. Escreve, também, para revistas femininas e constantemente é convidada para cursos e palestras em todo o Brasil. É casada com o escritor e poeta Affonso Romano de Sant'Anna.


O texto acima foi extraído do livro "Eu sei, mas não devia", Editora Rocco - Rio de Janeiro, 1996, pág. 09.



algumas pérolas




  • "A razão concreta mais importante para o envolvimento da teologia cristã com a filosofia foi, originalmente, e ainda hoje é, a doutrina cristã do Deus de Jesus de Nazaré como o Deus único e verdadeiro de todos os seres humanos" Wolfhart Pannenberg
  • "Há pessoas que desejam saber só por saber, e isso é curiosidade; outras, para alcançarem fama, e isso é vaidade; outras, para enriquecerem com a sua ciência, e isso é um negócio torpe; outras, para serem edificadas, e isso é prudência; outras, para edificarem os outros, e isso é caridade". Tomás de Aquino
  • “Todo cristão que aceita cegamente as opiniões da maioria e segue, por medo ou timidez, o caminho da conveniência ou da aprovação social torna-se mentalmente e espiritualmente num escravo.” Martin Luther King
  • "O moralismo incessante e exclusivo reduz o evangelho a um monótono código de comportamento, a uma ética rígida. O moralismo obscurece Jesus e transforma as boas notícias em más notícias." Brennan Manning



  • http://dlgrubba.blogspot.com/


    Um comentário:

    1. Eu gostei! Muito bom! Pena que o acesso ao conhecimento é restrito. Até Jesus voltar continua a divisão entre "senhores e escravos". Há os que podem e prevalecem em seus "pseudos saberes, pseudos poderes". Enquanto os demais permanecem conformados com a real condição de vida. Uns anestesiam suas mentes nos vícios. Outros escondem-se detrás da cultura inútil. Cegos, faltos de entendimento, continuam presos em si mesmos . Enquanto isso a falta de conhecimento ganha espaço na vida dos homens. E Jesus, sempre pronto a salvar o perdido pecador. É lamentável!

      ResponderExcluir

    Colabore conosco: escreva seus pontos de vista, opiniões ou críticas. Contamos contigo neste trabalho